RC (4-10, Set-17): Mr. Mercedes, Rick and Morty, Room 104, You’re the Worst

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“You’re the Worst” regressa mais madura. “Rick and Morty” entrega um dos melhores episódios do ano.

Assim se inicia mais um ciclo para a Ronda de Críticas, que conta ainda com o debruçar nos mais recentes episódios de “Mr. Mercedes” e “Room 104”. Não fosse “Rick and Morty” e esta semana a constante teria sido não outra que a masturbação. Uma semana por demais sexual.

“It’s Been”: Núcleo errante 9.1

O texto que se segue contém SPOILERS

Há algo de fascinante no encaminhar da narrativa pela óptica do errante. Assim o foi com Daniel Holden (Rectify) e Don Draper (Mad Men). Assim o continua a ser com o existencialista BoJack Horseman. Personagens que suspendem o dia-a-dia para se perderem no autoconhecimento. Interagem com estranhos que ousam cruzar-se no seu caminho. Encontros efémeros que deixam marca e influência. Jimmy (Chris Geere) junta-se ao leque e incorre na fuga ao velho ser. Despoja-se das distracções do mundo exterior e de quaisquer comodismos extra. É uma outra faceta que aqui se testemunha, a de alguém em sintonia com a solidão que outrora tanto proclamara como via à escrita. Não é nesse papel que se encontra, mas sim no de um indivíduo incapaz de lidar com o que para trás deixou. Usa a rotina como muleta e antídoto. Seria de esperar que meros vinte minutos ver-se-iam limitados para contar um interlúdio de uma personagem. Pelo contrário, acaba por fluir com naturalidade. A rotina conta não só a necessidade de Jimmy em abafar o desassossego da mente, mas também a passagem de tempo para a sua estadia. É quando as suas constantes se começam a desmoronar, que se vê novamente puxado para a velha existência.

O episódio duplo exibe a estrutura ideal para aquilo que se pretendia a contar. Largada a primeira metade, palco à influência nefasta fora do mapa, entra-se na segunda parte para retratar os vestígios para trás deixados. Jimmy é forte influência para os restantes elementos do quarteto, sendo que no caso de Lindsay (Kether Donohue) é-lo de forma indirecta. Pode-se ir mais além ao rotulá-lo como tóxico. Gretchen começa a mostrar-se peso morto no novo estilo de vida da amiga, usando-a como a única via de distracção. Ainda que a sua metamorfose se mostre pouco orgânica, “It’s Been” é um bom capítulo para Lindsay. Revela um certo crescimento bem como a crescente capacidade de compreender Gretchen como influência negativa.

Tal como seria de esperar aquando do virar de costas da cara-metade, a depressão de Gretch regressa em todo o seu esplendor. Aya Cash merece ser celebrada por conseguir uma junção perfeita de euforia, desorientação e fragilidade. O seu olhar na cena final chega a ser doloroso de testemunhar. Outrora promíscua, Gretch caiu no erro de se apaixonar. Agora limita-se a regredir. O iminente retorno de Jimmy promete vir a mexer com todas as peças do tabuleiro. Edgar (Desmin Borges) tem a sua doença sob controlo e o interesse-mor no campo profissional. Bem-estar efémero.

“You’re the Worst” regressa para o seu quarto ano com uma amostra do quão tem vindo a crescer desde o piloto. Postura mais madura, ciente do cinzento no carácter das suas personagens.

“The Suicide Hour”: Debaixo do guarda-chuva azul 7

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Ao quinto episódio, “Mr. Mercedes” vai de encontro a alguns clichés que até então vinha a saber contornar.

Se aqui elogiara a dinâmica entre os vizinhos como revigorante, reformulo agora como aparentando ser mais do mesmo. Depois de ver Bill (Brendan Gleeson) com uma mulher mais nova, Ida (Holland Taylor) acaba por regredir na postura de confiança que lhe era tão característica. Uma jogada que parece servir o propósito de encaminhar Bill para o suicídio, não se mostrando tanto como uma acção orgânica na linha de carácter de Ida. Com o virar de costas de todos que lhe são próximos, a perdição de Bill acaba por ganhar um impulso alheio à influência do próprio Mr. Mercedes. A “epifania” tida por Janey (Mary-Louise Parker) de que Bill fora coercivo nos interrogatórios à sua irmã, chega como solução conveniente para uma narrativa que sente a urgência em pavimentar a solidão do detective como via à ascensão do oponente. Janey sabia desde o início que Bill trabalhara no caso que envolve a irmã. Sabia igualmente que esta fora vítima constante de assédio psicológico por parte da imprensa e da comunidade em geral. Ciente de tudo isto, a mais recente informação milagrosamente proferida pela mãe, nunca lhe poderia chegar como a epifania que aqui se pinta.

A tão questionável provocação de Bill a Mr. Mercedes dois episódios antes, na qual o rotulara como impostor, prometia repercussões de elevada magnitude. Humilhado, desacreditado, Brady (Harry Treadaway) atingira um ponto de ebulição que rapidamente viria a esmorecer. Era urgente que reclamasse a sua autoria ao olhar do detective. Tal não se dá e o contra-ataque vê-se adiado. Brady vira as atenções para o cliente saído do círculo de Donald Trump, empreendendo um distorcido senso de justiça. É esta morte fruto somente da sua incapacidade de se ver humilhado? Ou tentativa de proteger a colega? É preciso ver além da sua carapaça para não pensar no segundo motivo como rebuscado. A relação de “amizade” que mantêm entre si, não aparenta ser suficiente para mover alguém tão individualista e dormente como Brady.

Sendo Brady personagem que antecipa cada passo, é natural que adie o contra-ataque até tudo se encontrar devidamente delineado. Bill infiltrou-se na sua mente, ao ponto deste se tornar mais descuidado a cada jogada tida a meia-haste. Temos a possível morte da mãe no hambúrguer envenenado que o filho coloca no frigorífico por entre a azáfama? Terreno por demais comum que se espera ver contornado pela série. Remover do mapa a figura materna seria o catalisador para a investida de um Mr. Mercedes ainda mais implacável.

“Mr. Mercedes” encerra a primeira metade da temporada com um episódio menos conseguido, mas que traz avanços significativos para as suas personagens.

“The Ricklantis Mixup”: Campanha para a mais criativa das séries 10

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“Rick and Morty” demonstra-se uma série bastante ciente de si mesma, retratando as suas personagens como arquétipos. O Rick. O Morty. O Jerry. Infinitas variâncias que na verdade não passam de pele a um cerne imutável por entre os semelhantes. Assim trata estes indivíduos, como se a condição lhes fosse inerente ao ADN. “The Ricklantis Mixup” marca a ascensão de um Morty, colocando-lhe o poder máximo no colo. Ponto de viragem para a série ou mero evento isolado? Espera-se a repercussão para a galáxia nos três últimos episódios da temporada. Têm ouro narrativo em mãos.

No Ricks, no families, high off their asses, and running amuck. Mortys are raised to be sidekicks. Without a side to kick, they just start kicking.

Pela primeira vez na série largaram-se os protagonistas originais, deixando os eventos de Atlântida à imaginação do espectador. “The Ricklantis Mixup” é vórtice de inúmeras referências e homenagens. Da dinâmica de “Stand by Me” à dormência distópica de “Brazil”, passando por um dos mais célebres momentos de “Breaking Bad”. Há ainda tempo e espaço para piscares de olhos a personagens oriundas de “Charlie and the Chocolate Factory”, “Harry Potter”, entre tantas outras. E que dizer das wafers que encerram em si mesmas a ideia de perfeição? Elemento distópico que é mera lembrança dos laivos de genialidade que a série teima em exibir.

Dos mais tresloucados vinte minutos que “Rick and Morty” alguma vez entregou. Quadro circense de cor e movimento. Não só se chega à frente como o melhor episódio da temporada até então, como agita o pódio dos melhores de toda a série.

“The Missionaries”: Terra virgem 8.4

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Tal como seria de esperar depois de exibidas as duas pérolas anteriores, o sétimo episódio (a coincidência da posição na temporada de um episódio que tanto lida com o divino) resvala um pouco na qualidade. Peca somente quando em comparação. É por si só mais um belo exemplo da amálgama de géneros que é “Room 104”.

Desta feita, o quarto de hotel é albergue a dois virgens de sensações. Em menos de meia-hora desconstroem-se as certezas de ambos os mórmons. A crença vê-se oponente ao desejo sexual gritante. “Inimigos” e, no entanto, não menos que confronto necessário para a realização daquilo que se abdica em prol do abstracto. O quarto de hotel é ouvinte à incompletude, à incapacidade em distanciar a memória do passado. É igualmente abrigo ao censurável no exterior. “The Missionaries” trabalha não só o limbo do cepticismo, mas também a dúvida que ronda a atracção sexual, entrelaçando ambos os motivos. É portanto episódio de libertação, com um acto tão mundano como o de beber uma cerveja, a adquirir significado especial.

My world has opened up and I can’t go back to my old world.

Sorrateiramente, “Room 104” tem vindo a deixar marca indelével no quadro de 2017.