O Bom, o Mau e o Vilão em “Game of Thrones”

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Breves apontamentos e reflexões sobre a actualidade televisiva. O retrato da semana televisiva em breves notas pessoais: aquilo que nos agrada, desagrada e faz detestar. Sem filtros, com muita antipatia ou simpatia.

Breves considerações gerais divididas nas três categorias clássica da rubrica desta intermitente rubrica, sobre aquela que será a mais importante série pop(ular) da última década.

O Bom

A garantia de entretenimento

Serão poucas as séries da actualidade que suscitam tanto interesse. Serão poucas as séries da actualidade que suscitam tanta paixão. Serão poucas as séries da actualidade que encerram em si tantos motivos de interesse.

O ritmo (ora frenético, ora dengoso), as personagens que atingem um vasto leque de características (temos de tudo e de todos nos personagens retratados – vivos ou já mortos). O ambiente num universo empaticamente mediático como o medieval e que bebe no romano, no grego, no mongol, no árabe, no nórdico, no oriental, … estabelecendo pontes culturais com praticamente todo o globo, conduzem ao óbvio: a um consenso universal sobre “Game of Thrones”. E aos quais se apimentaram com zombies e dragões.

Para mais é bem escrita, bem dirigida, misturando sabiamente os motivos que agradam a todas as audiências.

O fenómeno social que se tornou

É curioso este fenómeno que extravasa em muito o mundo anglo-saxónico. Não são só as discussões em volta da série ou dos livros. É o impacto visível dos personagens nas “Comic Cons”, nas frases que saltam para a vida real “you know nothing”, a música que se apropriou de outras séries ou dos toques dos smartphones, ou ainda da legião de bebés que nasce chamando-se Khaleesi, Daenerys ou Jon.

Ou da quantidade de livros que procura apropriar-se da temática, ou das séries nos mais diversos canais televisivos que procuram criar o “seu” “Game of Thrones”.

E a importância que tem para a programação e o risco da HBO nos projectos que tem apresentado (Westworld). Como sintetizava Stephen Colbert para John Oliver há umas semanas referindo-se à capacidade do programa de Oliver na HBO: “dragon money”.

Muito interessante o fenómeno!

As audiências esmagadoras

Palavras para quê? A série mais vista, com mais downloads legais, com mais downloads ilegais, com os episódios mais vistos.

E a certeza de que a derradeira temporada suplantará os recordes até agora atingidos.

 A surpresa dos livros

Cheguei tarde aos livros. Não me apetecia, não queria ser surpreendido, queria apreciar a série. Não queria spoilers, não queria saber que personagens tinham sido eliminados ou dos vários fundidos, ou dos criados. E sabia que o autor estava a demorar-se na escrita do sexto de sete livros e não me apetecia ficar à espera uma década para saber como acabava.

No entanto, nada disso interessa, pois a série já não existe nos livros (ou será o contrário). Neste momento será um objecto completamente diversos daquele que o autor nos apresentará.

Então o que dizer dos livros? Primeiro que estou a ler muito devagar para ver se aguento até ao próximo Verão, altura em que supostamente o autor lançará o sexto livro (ok, depois só terei que esperar mais uma década para o sétimo, mas até lá tenho os cinco spin offs da série previstos pela HBO e os outros livros do autor, ente os quais o próximo sobre a vida dos Targaryen a lançar -?- igualmente no próximo ano -!!!!-).

Depois, que a qualidade da escrita e da tradução é muito, mas mesmo muito boa.

O Mau

Não há bela sem senão e, infelizmente, esta temporada presenteou-nos com grandes amargos de boca para os quais não havia necessidade. O rol é enorme e não serei exaustivo, referindo apenas aquilo que me irritou à séria.

Distância

Toda a gente fala nisso e será um dos maiores pecados. Andámos temporadas em que as deslocações se demoravam devido às distâncias para nestas ser tudo muito rápido. Demasiado rápido. E pior com falhas que são importantes do ponto de vista narrativo e do sentido de unidade criado no universo que necessita de um forte espírito de “suspension of disbelief”. E confesso que por deformação académica e profissional me provoca grande comichão, pois não se mudam de zonas climáticas à velocidade de um exército Dothraki (por muito rápidos que sejam os cavalos) ou de um corvo.

Neste momento sofre do mesmo mal que “The 100”, só que com um problema: a qualidade de GoT nada tem haver com aquela.

Eastwatch

O episódio mais fraco da temporada e um dos mais fracos da série. Entretém, tem espetáculo, (alguma) emoção, bons efeitos, boas lutas, mas é confrangedoramente mal escrito. Aliás, a escrita revelou-se esta temporada um dos calcanhares de Aquiles.

“Eastwatch” foi, essencialmente, fogo de artificio. Começa pela desculpa narrativa, completamente descabida: uma missão suicida para capturar um zombie (podem chamar-lhe outra coisa), para o levarem a Kings Landing para convencer Cersei, um dos personagens mais desequilibrados da série?

Portanto a mulher que tem o maior exército e três dragões, um estratega com uma resposta pronta na ponta da língua, é incapaz de arrasar Kings Landing num bater de asa com hálito de dragão, preferindo uma trégua para ir combater uma horda de mortos-vivos albinos.

Ficámos a saber que um Gendry sozinho é mais rápido que o grupo (não se distraiu com as conversas sobre mulheres e gastronomia/cocks), ou então que não se afastaram muito da muralha, mas estava tanta neve que andaram aos círculos e devagar. E que os conquistadores brancos estavam pertinho.

Foi pedagógico pois soubemos que os corvos viajam muito, mas mesmo muito rápido e que os dragões também. E que foi isso que fez com que a equipa de captura zombie só tivesse que aguentar uma noite (um dos pormenores mais irritantes do episódio).

E que os white walkers têm uma grande pontaria e afinal os dragões também se abatem (lembram-se daquele outro episódio em que um dragão é atingido?).

Quantas vezes ao longo da série é que o Jon já podia ter morrido, além daquela em que morreu?

E o que dizer daquele final de episódio excessivamente meloso?!

E pensar que quando vi o trailer pensei “será uma espécie de assalto à 13ª esquadra, misturado com o It de Carpenter”?

 A paixão (don’t cal me Danny) Daenerys e Jon

Continuemos a partir do ponto anterior: aquela situação do Jon deitado no navio a chamar Dany e a dizer que dobrava o knee (para pedir em casamento, certo? Ah, não!) é do mais idiota que a série nos deu. Pessimamente escrito. Pior os dois personagens não têm química: para quem é que é credível que há ali atracção?

É das partes que mais curioso estou para ler no livro que há-de vir.

Não deixa de ser divertido ler nas redes sociais e em algumas reviews que eles são tia e sobrinho e aquilo é incesto, portanto não devia acontecer. Isto numa série em que dois irmãos gémeos têm filhos e foram vistos em actos incestuosos em vários episódios (um de uma violação que até deu brado, mesmo aqui neste site).

E que nos livros (sim agora sou um especialista) se conta que os Targayen casavam com as irmãs para garantir que o poder não se perdesse. E os dois são Targaryen. Além do mais é ficção para adultos e não mais do que isso.

As mortes

Desta vez foi Littlefinger e pouco mais (Benjen não conta que já há muito desapareceu em combate). E acho que a morte de Littlefinger foi porque tinha que haver uma com impacto.

A série aqui perdeu e perdeu muito, pois está a arriscar pouco. Talvez porque falte a coragem do autor no suporte livro.

Buracos e buraquinhos narrativos

Personagens que desapareceram há temporadas e agora regressam apenas para justificarem o injustificável (Benjen a salvar Bran e depois, pior ainda, a salvar Jon) ou o bastardo Gendry (apenas porque era divertido um piscar de olhos aos fãs). Ente muitas outras coisas.

Melisandre? As sand snakes que se despacham para atar pontas. Uma muralha que cai mas não se explica bem como. A reunião em Dragon Pit, interessante, mas pouco credível.

Como descobriram os Starks sobreviventes da traição de Littlefinger? Será que têm um dedo mindinho que lhes disse? E Bran afinal não viu tudo? E Tarly como chegou a Winterfell assim de repente? Terá vindo de corvo? E como se lembrou de tudo o que a mulher lhe havia dito quando ele estava tão concentrado a estudar? Todos sabemos que os homens não conseguem ouvir quando lêem.

E Jaime vai a cavalgar num rio raso, mas cai num poço no rio, para com armaduras pesadas ser empurrado pela corrente kms abaixo? E já agora, como é que Jaime evoluiu de um cínico de mau carácter para um dos personagens mais simpáticos?

E onde estão as hordas de mulheres nuas que a série mostrava? Os autores renderam-se às críticas do público? E atenção que não defendo aquela opção por considerar que nunca teve importância narrativa, mas sim por fazer parte do ambiente da série.

E Euron constrói uma frota gigantesca com o quê? E como tão depressa?

E onde, mas onde, está Yara?

And so on, so on,…

 Bran

Não percebo o porque de Bran. Até agora é um personagem desnecessário, com uma linha narrativa que não adiantou nada. A não ser que…

 Mas quando é que George R se despacha?

Para quando os próximos dois livros?

 E como vai ficar a série?

E, finalmente, uma dúvida: com os dois próximos livros, o que vai acontecer à série? Será que iremos ter daqui a uns anos a temporada 7B e a 8B? E estas duas serão apresentadas como um sonho mau de Cersei? Ou de um dos dragões?

  

O Vilão

Spoilers nas redes sociais

Definitivamente o vilão de GoT, são os supostos fãs que vêm para a redes sociais spoilar tudo e mais alguma coisa.

Mas aquilo que se passa nas redes sociais é matéria para outro universo…