Lucky Louie (2006): O Berço de Louis C.K.

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O texto que se segue NÃO contém SPOILERS

Laivos de um génio ainda por vir

Termino a odisseia televisiva “Louis C.K.” com um recuo às origens, nesta que foi a primeira incursão do comediante pelo pequeno ecrã. Mais uma vítima da machadada precoce, tendo sido exibida uma só temporada. É logo na génese da sua persona que se encontra toda a irreverência que lhe viria a ser constante nos próximos dez anos. O humor assente na estratificação racial chega a 2017 como que envelhecido e ainda assim, por entre um certo contra-senso, não deixa de parecer ter estado à frente do seu tempo. Se em 2006 inúmeras saídas levantaram sobrolhos, actualmente ver-se-iam chacinadas. Deixou de haver espaço para tal, o que só revela um regredir de mentalidades. Nunca comedido, Louis C.K. revela-se desde logo extremamente honesto nas críticas sociais a que se propõe.

A linguagem escolhida é tão directa (bendita HBO que lhe foi casa), que por vezes custa a crer que se tenha conseguido chegar à fala e posterior transmissão. “She’s a fucking asshole”, linha de diálogo usada por ambos os elementos do casal para se referirem à filha de quatro anos quando ausente. Mero exemplo de um limite imposto à grande maioria das sitcoms e que aqui se vê transposto como via de uma sinceridade mundana. “Lucky Louie” foge ao filtro moral, dando voz aos pensamentos controversos tidos diariamente. Liberdade total na forma como aborda o sexo como temática. Não sendo sexualmente explícito, é-o na forma como constrói os diálogos sem qualquer pudor. A título de exemplo, a mulher masturba o homem a fim de deitar por terra a momentânea crise existencial do parceiro. Em “Lucky Louie” o sexo é tido como via cómica sem nunca se descurar a sua importância num casamento que se quer saudável. As duas personagens discutem-no com a maior das liberdades por entre conversas corriqueiras. Há uma química inegável entre Louis C.K. e Pamela Adlon, tão natural que parece querer injectar o seu quê de documental. A química voltaria a ser palpável no decorrer da magistral “Louie”, com aparições esporádicas de Adlon como o interesse amoroso. Dupla não só diante das câmaras, têm na mais recente “Better Things” a primeira criação assinada por ambos. Ainda que me pareça o produto mais fraco por entre o currículo televisivo do comediante, dá a tão merecida oportunidade a Adlon de incorrer no protagonismo a solo. De “Lucky Louie” a “Better Things”, passando por “Louie”, todas acabam por funcionar como quadro ficcional de inúmeras experiências vivenciadas por ambos os actores. Tanto Louis como Pamela levam o dia-a-dia como pais solteiros, temática constante no panorama televisivo do comediante. É nesse transpor das tentativas a solo que se consegue tanto de autêntico.

Um produto televisivo saído da mente de Louis C.K. nunca surpreende pela premissa, sendo-o sempre mero apontamento do dia-a-dia. “Lucky Louie” não é excepção, com o retratar de um casal de classe baixa e a educação dada à filha. É na execução honesta e tão terra-a-terra que se eleva a um dos melhores argumentistas da actualidade. Acima de quaisquer outros, dois episódios arranjam lugar confortável na memória. Um inteiramente dedicado à rebeldia crescente da filha, com ambos os progenitores a demonstrarem formas de a educar bastante díspares entre si. Um outro episódio que ronda a relação deteriorada entre os protagonistas com uma sinceridade raramente vislumbrada. “Lucky Louie” peca somente no desuso dos secundários como personagens individuais capazes de protagonizar tempo de antena. Perante os enormes actores principais, a verdade é que a vontade de desviar o olhar para os restantes acaba por ser quase inexistente.

“Lucky Louie” é terreno de preparação para a mestria patente em “Louie” e “Horace and Pete”, esta última uma obra-prima inesperada da melancolia. Louis C.K. é uma das vozes emergentes dos últimos dez anos. Espelho de produtos que encontram catapulta na mais simples das premissas: o decorrer do dia-a-dia.